segunda-feira, 30 de julho de 2007

Newark é esplêndida no outono, salpicada por todas aquelas folhas marrons, os bancos molhados pelo vento úmido e gelado, dando as entradas para o inverno.
Mas não foi sobre a cidade que vim falar, sobre estações e características temporais. Foi sobre mim mesma, sobre questionamentos e incertezas.
Funciona como um ritual, como se a beleza própria do pequeno parque já não fosse suficiente. Ele está sempre lá, todos os dias, para completar e emoldurar meu quadro de perfeição.
Não sei seu nome e nem de onde veio, mas gosto da companhia longínqua, de analisar suas feições e seus gestos, criar histórias totalmente minhas e obscenas onde ele é sempre meu protagonista.
Entre um cigarro e outro, me ajeito no encosto gelado do que um dia foi a balança principal e fico admirando como ele está particularmente bonito hoje. O vento típico bagunça seu cabelo estranho, deixando a testa de proporções perfeitas a mostra. Me agrada o corte de cabelo, a cor dos olhos e a maneira perdida com que observa os próprios sapatos.
Não é amor, ou talvez seja. Não sei como as pessoas que amam se sentem, nunca tive uma explicação viável sobre o assunto. Na verdade sempre achei que fosse algum tipo de doença psíquica.
Ele fica todo o tempo enquanto o observo, brincando com um isqueiro. Fumante. Assim como eu. Passa os dedos delicadamente tatuados por entre a chama sem calor, com o mesmo olhar vazio de antes.
Ele tem algo que me atrai e que eu desconheço, algo que eu não tenho: fé. “Ave Maria, cheia de graça”, finjo ouvir de seus lábios enquanto ele se aperta dentro da jaqueta preta, com tanta força que os nós dos dedos perdem a cor. A boca vermelha de frio, os lábios movendo-se novamente, como que se em uma delicada prece.
Descarto meu segundo cigarro e coloco as mãos nos bolsos, como em todos os outros dias, e procuro com fervor o cordão. Encontro e o seguro com força, mesmo sem sentido ou sentimento algum. As hastes do crucifixo machucam meus dedos, tal a crença que tenho em ser aquele o objeto de nossa ligação.
Não preciso olhá-lo para saber quais serão seus próximos movimentos, mas meus olhos não descansam nem um segundo de seu semblante. Ele fechará os olhos e dará um sorriso meigo, como que em agradecimento. Por um segundo sinto o pulso divino me guiando em sua direção, mas a palavra em latim gravada no crucifixo que eu impiedosamente encontrei e não devolvi, me devolve à idéia de que fomos feitos a distância e que assim devemos prosseguir.
É agora que ele se levanta e me despeço mentalmente do garoto que em letras laranjas tem Halloween gravada nos dedos.
O vento sopra como uma leve e santa canção ao meu redor, meu último cigarro antes de voltar à realidade.



[Eu ainda fico de quatro por esse texto, não sei porque, acho que é um dos meus melhores.]


Um comentário:

shantal-lis. disse...

impossível explicar inspirações.
só se pode sentir.
é como sentimento. só que um sentimento que nem todo mundo teve a sorte de ter. um dom?!
pode ser.
somos felizes por isso.
especiais.
texto lindo!